Iniciei a minha formação académica ali na Escola Superior Agrária de Santarém, na altura com o curso de Tecnologias e Indústrias Alimentares, que terminei em 1981. Logo a seguir, tive a oportunidade de fazer uma pós-graduação em Enologia, na Universidade de Geisenheim, na Alemanha.
Quando cheguei de Geisenheim, iniciei o meu percurso profissional, começando a trabalhar como enólogo assistente de um dos maiores enólogos vivos da altura, que era o Octávio Pato.
Trabalhei como assistente dele durante três anos, portanto iniciei o meu percurso também numa grande Adega Cooperativa na Estremadura, e posteriormente fiquei como enólogo principal dessa mesma estrutura que vinificava na altura 25 milhões de litros, portanto, uma dimensão bastante grande.
A Adega Cooperativa da Vermelha, na Estremadura. Mais tarde, iniciei consultoria em vários produtores particulares e deixei de estar a tempo inteiro nessa estrutura, passei a ser apenas consultor, e, entretanto, em 1993, surgiu uma oportunidade de continuar a minha formação académica, na Austrália, portanto, numa Universidade australiana, bastante conceituada no domínio da viticultura e da enologia, e uma das maiores Universidades da Austrália, que é a Universidade de Charles Sturt, e aí obtive então um novo diploma em viticultura e enologia, que de facto foi a última formação que fiz, em termos académicos, embora nós enólogos estejamos sempre a fazer formação porque efectivamente a nossa formação nunca está completa, todos os anos vamos fazendo várias acções de formação, em Portugal e no estrangeiro, porque são fundamentais para desenvolvermos aquilo que sabemos porque as coisas mudam todos os anos.
o clima não é o mesmo, as plantas vão tendo um comportamento diferente, e portanto aquilo que sabemos num ano não é necessariamente aquilo que temos de saber no outro. No outro a seguir vamos ter que saber muito mais para resolver problemas que nos vão aparecendo.
Obviamente, nós trabalhamos com uma indústria que é uma indústria muito desenvolvida a nível mundial e que tem todos os anos grandes transformações e grandes evoluções, e portanto nós somos obrigados, se queremos estar na frente do pelotão, a acompanhar essas evoluções e essas transformações que se verificam, e isso obriga-nos obviamente a estudar e a estar atentos ao que se passa, a ir a congressos e a seminários, e, portanto, é fundamental que estejamos por dentro do melhor que se faz no mundo para efectivamente podermos trazer para Portugal esses conhecimentos.
Hoje a minha vida profissional consiste em ser consultor de várias empresas, entre as quais aqui a Adega Cooperativa de Almeirim, que é de facto hoje em dia a minha casa, é onde eu me sinto em casa e onde passo mais tempo. Independentemente da Adega Cooperativa de Almeirim, eu faço também vários produtores, várias herdades, no Alentejo, aqui no Ribatejo e também na Estremadura, portanto trabalho com três diferentes regiões e faço ainda no Douro, não todos os anos, mas de quando em vez, faço vinhos da Região do Douro, por encomenda, para alguns clientes meus, trabalho essencialmente nestas quatro regiões do país, com cerca de 20 produtores, contando com a Adega de Almeirim, são cerca de 20 produtores, o que tem como grande vantagem dar-me uma visão com uma grande amplitude daquilo que se passa no país, e muitas vezes eu costumo dizer que Almeirim efectivamente, além de ser uma adega com elevado prestígio nacional, é o maior produtor nacional, portanto é a adega que mais vinho produz em Portugal, tem também a grande vantagem de ser a primeira a começar a vindimar.
Almeirim é quase sempre, no país, uma das primeiras estruturas a iniciar as suas vindimas, o que me permite a mim, muitas vezes, quando por exemplo inicio vindimas, vamos supor, no Douro, às vezes em final de Setembro, ou na Estremadura, ter já todo o feedback daquilo que se passou, porque Almeirim já acabou, portanto eu já trago um mês e meio de vindimas.
Sim, já tive vindimas a começar aqui no dia 2 de Agosto, quando o normal para o resto do país é Setembro. Aqui, no Ribatejo, não só em Almeirim, em Alpiarça também, nesta zona do Ribatejo, do Tejo para o Sul, normalmente começamos bastante mais cedo porque as maturações aqui avançam bastante, nós temos muitos associados que têm vinhas em solos arenosos, na chamada Charneca Ribatejana, e ai as maturações efectivamente avançam muitíssimo mais, porque além do calor que normalmente faz aqui nesta região nesta altura, a areia absorve muito calor durante o dia e irradia durante a noite esse mesmo calor, portanto as maturações aqui fazem-se ao dobro da velocidade que se farão num terreno argiloso.
Por exemplo, noutra área que nós temos que é a chamada Lezíria, ou o chamado Campo, que já são essencialmente terrenos de origem argilosa, as maturações atrasam bastante mais, nós chegamos a ter diferenças bastante sensíveis, às vezes de dois graus, entre uma maturação que se processa na Lezíria e uma maturação que se processa na Charneca, portanto, há um grande diferencial na evolução das maturações, devido precisamente aos tipos de solos diferentes.
É. Nós vamos começar aqui este ano dia 18 de Agosto, e começamos com uvas vindas da Charneca, desses solos arenosos, e depois não paramos, continuamos, e a Lezíria só começa a ser vindimada mais tarde, já em Setembro. Porque os terrenos de aluvião, os chamados solos de aluvião, dão normalmente maturações mais tardias do que estes solos arenosos da Charneca, isso tem sobretudo a vantagem de fazer vinhos diferentes, permite à Adega ter dois estilos de vinho completamente diferentes.
Efectivamente, não se pode dizer que o vinho da Lezíria é pior do que o da Charneca, porque em anos em que as condições são extremas e em que há grandes problemas de stress hídrico, muitas vezes as uvas que temos em Charneca chegam-nos aqui com alguns problemas complicados, porque a planta esteve em deficit hídrico durante muito tempo e obviamente o fruto sofre bastante com isso, portanto, nesses anos, por exemplo, tudo aquilo que vem da Lezíria é melhor do que aquilo que vem da Charneca.
Quando são anos normais, por exemplo este ano, que foi um ano em que tivemos uma pluviosidade até um pouco acima do normal, eu pessoalmente estou convencido que vai ser um grande ano de vinhos de Charneca, portanto, de terrenos arenosos. Dá-nos essa grande vantagem, como temos duas sub-regiões, se assim podemos dizer, completamente diferentes, que dão também vinhos diferentes, podemos aproveitar efectivamente estas sinergias, ter dois estilos de vinho, e inclusivamente as nossas marcas estão direccionadas nesse sentido, normalmente os Varandas, que são os nossos topos de gama, os Varandas brancos e os Varandas tintos, são feitos com uvas de Charneca, por norma, e os Lezírias, aqueles vinhos mais leves, os Lezírias meios-secos, os Alternativas, são normalmente feitos com uvas que são provenientes da Lezíria. Há esta segmentação, temos a possibilidade de fazer vinhos completamente diferentes a partir de cada uma das sub-regiões que temos.
Sim, motivou-me sobretudo que a Adega tinha efectivamente excelentes uvas, era um grande produtor, e continua a ser um grande produtor, e tinha já na altura condições tecnológicas bastante avançadas em relação às outras adegas.
Eu cheguei aqui numa época áurea para a Adega, em 1999, vai fazer 10 anos, em que o vinho se vendia bem vendido, em que efectivamente se pagava bem aos produtores porque se conseguia vender bem o vinho, e havia dinheiro para investir, e então fez-se uma autêntica revolução tecnológica na Adega de Almeirim, portanto, a Adega de Almeirim investiu nessa altura muito dinheiro e mercê disso tem hoje uma adega evoluidíssima e pode ser considerada evoluída em qualquer parte do mundo, poucas adegas cooperativas no nosso país têm hoje o nível de tecnologia que tem a Adega de Almeirim, e ao mesmo tempo,
encetou-se nessa altura também uma pequena revolução ao nível dos encepamentos.
Quando cheguei aqui havia duas castas, nos brancos Fernão Pires e nos tintos Castelão, não havia mais nada. Iniciou-se a plantação da Tinta Roriz, nos tintos. Nos brancos, enfim, plantou-se também alguma coisa mais, que não só Fernão Pires, Tália, por exemplo, algum Arinto. Nos tintos, mais tarde, inclusivamente, começou-se a plantar Syrah e algum Cabernet. A Adega neste momento tem já, pequenas quantidades, mas que permitem fazer alguns vinhos diferentes, de Syrah e de Cabernet, e muita Tinta Roriz, portanto, a Tinta Roriz, neste momento, estará quase a par do Castelão, são as duas principais castas tintas, logo, esta possibilidade, com toda a tecnologia que a Adega adquiriu entretanto, permitem hoje que a Adega seja efectivamente um produtor de elevado potencial, uma grande empresa que consegue fazer vinhos modernos, vinhos que estão bem adaptados ao mercado, e a prova disso é o sucesso comercial que realmente temos tido nos últimos tempos.
É justo dizer que eu quando cheguei não estava tudo por fazer, havia já um trabalho feito, e a Adega já era na altura uma adega muito bem apetrechada, em relação às outras, mas de facto foi feito um trabalho de reequipamento, se quisermos, muito frutífero, nomeadamente a construção de um novo pavilhão de engarrafamento, que nos veio dar, obviamente, outra margem e outra possibilidade de trabalhar mercados internacionais e de ampliarmos inclusivamente a nossa rede de vendas em Portugal, a instalação de duas linhas de engarrafamento automática com capacidade para 12.000 garrafas por hora, 6.000 cada uma delas, tudo isso trouxe à Adega uma nova condição, digamos, uma possibilidade que não existia antes de competir nos grandes mercados quer nacionais quer internacionais.
A Adega de Almeirim está hoje preparada, se for preciso, para grandes volumes de exportação, nós já vamos fazendo exportações consideráveis para vários países do mundo, nos vários continentes, mas a nossa intenção é aumentar essa quota de exportação e, efectivamente, estamos preparados para isso, se surgirem dez contentores para encher na próxima semana, nós temos consciência que os podemos encher, que temos capacidade para os fazer e fazê-los chegar ao destino.
Bom, advieram sobretudo, penso eu, melhores vinhos, mercê disso mesmo, mercê de castas com uma mais-valia qualitativa enorme, o caso do Syrah por exemplo, que está a produzir vinhos fantásticos, também mercê da tecnologia que instalámos, e portanto o balanço é seguramente positivo, pena é que o sector nos últimos dois ou três anos tenha atravessado uma crise, que parece que felizmente se está a esbater, que obrigou a que realmente os preços do vinho descessem bastante, e obviamente que houve alguma desmotivação, entre os nossos associados, mas eu penso que felizmente este ano os preços melhoraram bastante, a Adega de Almeirim teve um incremento de vendas muito significativo, também com uma nova Direcção Comercial, com a Dra. Marta, e nomeadamente na exportação as coisas estão a correr bastante bem e o incremento é significativo a nível de vendas, o mercado também mexeu e os preços subiram, portanto, provavelmente a Adega de Almeirim não irá nos próximos anos fazer aqueles 30 milhões de quilos que já fez, mas irá estabilizar entre os 15 e os 20 milhões.
Quanto a mim, do meu ponto de vista pessoal, será a produção ideal para esta adega, que lhe permitirá valorizar essa mesma produção, ou seja, se nós produzirmos 15 milhões, se calhar conseguimos colocar todo esse vinho a preços muito razoáveis no mercado nacional e algum no mercado internacional, mas se produzirmos 30 já vamos ter que vender uma parte a preços baixos porque não conseguimos vender tudo a bons preços.
Ou seja, acaba por ser positivo, de alguma forma, que a Adega baixe ligeiramente a sua produção, em relação àquilo que se passava há alguns anos, em que inclusivamente não tínhamos capacidade suficiente para receber essas uvas todas, que depois eram transformadas em vinho, e muitas vezes tínhamos que recorrer ao Instituo da Vinha e do Vinho para nos alugar capacidade, obviamente tudo isso são despesas, portanto, do meu ponto de vista, o ideal para esta adega é produzir entre 15 e 20 milhões de litros, mais do que 20 milhões de litros é prejudicial porque nós efectivamente temos alguma dificuldade em conseguir escoar esse excedente.
Hoje já não é verdade que os preços dos vinhos do Alentejo sejam mais altos, pelo contrário, muitas vezes os nossos comerciais dizem-nos que os vinhos do Alentejo fazem concorrência porque têm preços mais baratos.
A verdade é que o Alentejo hoje tem um excedente de produção enorme, e esse enorme excedente de produção levou a que alguns grandes produtores, sobretudo grandes produtores, baixassem preços para conseguirem vender, e portanto hoje já não se passa isso, hoje já há vinhos do Alentejo a melhores preços do que vinhos de outras regiões, não só do Ribatejo. A grande vantagem do Ribatejo é a competitividade, eu fiz uma parte da minha formação num país que é, em termos de produção de vinhos, um dos países mais evoluídos do mundo, se não o mais evoluído, a Austrália, e efectivamente a Austrália conseguiu fazer o que fez porque é um dos poucos países do mundo que consegue produzir 20 toneladas por hectare de uvas, com excelente qualidade.
O Ribatejo consegue fazer isso. É a única região em Portugal que consegue fazer isso, mais nenhuma região consegue. Eu tenho produtores em Almeirim que produzem 15 ou 20 toneladas de Fernão Pires com qualidade, mais ninguém consegue fazer isso. A grande vantagem do Ribatejo é a competitividade que esta região tem. São os melhores solos do país, toda a gente sabe isso, aqui estão os melhores solos do país, portanto nós conseguimos fazer aquilo que mais nenhuma região consegue.
Estou convencido e, aliás, não sou só eu, vários estudos o dizem, que esta região é a região mais competitiva no sector vitivinícola em Portugal. O meu optimismo vem precisamente daí, sei que esta região tem um potencial enorme, pode produzir bem, com qualidade, e isso nos mercados actuais, e sobretudo nos mercados internacionais, é extremamente importante.
Mas o mercado nacional começa a definir-se hoje também por critérios de maior racionalidade, o que é hoje um vinho de sucesso, é importante definir isto, o vinho de sucesso hoje é um vinho que vende bem, consegue ser vendido a um preço justo, portanto a um preço que é bom para o consumidor, e tem uma excelente relação qualidade/preço.
O consumidor hoje o que procura, a fidelização que existia há duas décadas, um consumidor beber sempre a mesma marca e beber sempre o mesmo vinho, hoje é mentira, ninguém tenha ilusões, o consumidor hoje procura coisas novas todos os dias, e o que procura é beber bons vinhos a bom preço. Qual é a região que tem a possibilidade, ou a maior possibilidade, de lhe oferecer isso? É o Ribatejo, seguramente.
É a região que consegue produzir vinhos com uma média de relação qualidade/preço imbatível. Lá vão os meus clientes do Alentejo dizer: lá está você a defender o Ribatejo!
Eu penso que o Ribatejo sobretudo, falando do Ribatejo de uma forma em geral, penso que o Ribatejo precisa muito de promoção. O Ribatejo tem feito uma promoção incipiente, quase não tem existido, quase não se dá pelo Ribatejo, e efectivamente eu penso que a região merece mais, a região, que é uma grande região, tem que ter recursos em si própria, tem que gerar fundos em si própria para poder fazer essa promoção.
Porque o Ribatejo, efectivamente, ao contrário do Douro e do Alentejo, que têm feito, as próprias regiões, uma grande promoção internacional, não só nacional, mas também internacional, o Ribatejo não a tem feito cá e muito menos lá fora. Penso que passará por aí, passará pelo Ribatejo conseguir unir-se em torno da sua própria CVR e conseguir fazer essa promoção em conjunto, todos os produtores unidos em conjunto, primeiro se calhar no mercado nacional, em Portugal, porque as pessoas bebem pouco Ribatejo em Portugal, essa é que é a verdade, e depois fazê-la também no estrangeiro.
Neste momento, há vários casos de sucesso de vinhos ribatejanos por aí, por esse mundo fora, estou-me a lembrar por exemplo da Suécia, da Noruega, países do Norte da Europa, que adoram os vinhos do Ribatejo.
Exactamente. Esses mercados para mim são barómetros, porque são como sabemos dos países mais ricos do mundo, mas onde as pessoas também são mais inteligentes, porque não correm atrás de marcas, correm atrás de vinhos, correm atrás do que é melhor ao melhor preço, e aí o Ribatejo está muito bem implantado, isto demonstra bem o potencial que o Ribatejo tem.
Agora, penso que a promoção é fundamental, hoje não se faz nada sem promoção, o Marketing é fundamental neste negócio do vinho e eu acho que o Ribatejo poderia estar muito melhor, e tem um grande futuro, se conseguir fazer isso, se conseguir realmente fazer a promoção que até agora não tem conseguido fazer.
Exactamente. Ainda assim, o Ribatejo tem vindo a crescer, devagar, mas sustentadamente, a quota de mercado tem vindo a aumentar, está neste momento nos dois vírgula alguma coisa por cento, mas se nos lembrarmos que o Alentejo tem mais de quarenta, quer dizer, temos noção que temos de fazer alguma coisa para sair destes dois e tal por cento, nós temos que gradualmente conseguir chegar a uma quota de mercado, já não vou dizer igual à do Alentejo, porque o Alentejo de facto está muito bem implantado no mercado nacional e todos nós sabemos que é também uma região com excelente qualidade, mas conseguir saltar destes dois e tal por cento, é fundamental que o consigamos fazer num futuro muito próximo, porque não se percebe como é que uma região destas, que tem estes vinhos, tem dois e tal por cento de mercado em Portugal, não dá para perceber.
Sim, claro. A região é desconhecida para muitos consumidores, quer dizer, em Portugal, no seu próprio país, a Região do Ribatejo é desconhecida para muitos consumidores.
O Dão é uma região muito antiga, com muito bons vinhos, mas obviamente é uma região completamente diferente do Ribatejo e está longe de ser tão competitiva como o Ribatejo.
Aí está um bom exemplo, falou agora num exemplo paradigmático. A Quinta de Cabriz levou atrás dela toda uma região. Se calhar aqui no Ribatejo não tivemos a sorte de aparecer até agora também uma marca que levasse a região atrás, mas como ela não apareceu, provavelmente têm que ser as marcas mais importantes, entre as quais naturalmente a Adega de Almeirim, têm que ser as casas mais importantes a fazer esse trabalho, a puxar pela região, porque se não for assim a região não descola. Esse trabalho do Dão é um excelente exemplo, feito pela Dão Sul.
A adega já faz monocastas, iniciou com a gama Marachas há alguns anos.
Sim, o Marachas continua. Houve um ano ou dois em que descontinuámos, efectivamente, em que a marca foi descontinuada, e este ano regressamos, inclusivamente com bivarietais, portanto, com misturas de duas castas, é um nicho de mercado, os Marachas são sobretudo vinhos de prestígio, vinhos que prestigiam a Adega, são marcas muito interessantes para a Adega porque efectivamente a Adega precisa de ter marcas que puxem por ela.
Exactamente. O Marachas e o Varandas são as duas marcas de topo da casa, portanto são marcas muito importantes, não pelo volume de vendas que fazem em si, mas porque são vinhos-bandeira, como disse e muito bem, e porque puxam muito pela imagem da adega, são extremamente importantes nesse aspecto. A Adega de Almeirim é hoje bastante conhecida, essencialmente pelos Marachas, porque toda a gente se lembra que, quando lançámos os Marachas, eram autênticas “bombas”, porque eram vinhos com um preço excelente e com uma qualidade fantástica, toda a gente ficou impressionada, como é que era possível fazer aqueles vinhos, com aquela qualidade, e àqueles preços.
Hoje há muitos, na altura havia bastante menos. Em termos de adegas cooperativas, a Adega de Almeirim foi praticamente a primeira no lançamento de monovarietais. Esses vinhos mereceram reconhecimento nacional e internacional e tenho alguma pena que tivesse sido necessário descontinuá-los, porque houve dois ou três anos em que não os pudemos produzir, porque não tínhamos a qualidade suficiente para isso, porque de facto houve um ano ou dois em termos de qualidade complicados em Portugal, e também por questões de mercado. Felizmente, este ano, eles estão aí novamente, vamos engarrafar Marachas, colheita de 2007, quer branco, quer tinto.
Sim e neste momento a Adega reúne todas as condições para poder fazer excelentes produtos, tem a nível de distribuição um trabalho que está a ser muito bem feito, faltam-nos sobretudo duas coisas. Uma maior penetração nos mercados internacionais, trabalho esse que a Marta está a desenvolver, e portanto nós queremos ganhar peso nos mercados internacionais, isso é fundamental para esta casa. E falta-nos, para isso, para conseguir esse objectivo, nós próprios fazermos esse tal trabalho, como falávamos há pouco, da promoção e do Marketing que eu acho que é essencial, não há nenhuma empresa moderna que consiga sobreviver no mundo do vinho sem ter o seu plano de Marketing, sem se fazer notar ao consumidor, porque de contrário, pura e simplesmente ela é esquecida. Não tenho a mínima dúvida que o nosso grande desafio para os próximos dez anos será apostar na promoção e através dela chegar à exportação e consolidar a nossa posição no mercado nacional.
A concorrência cada vez é mais forte. Portanto é fundamental que nós façamos alguma coisa para opor a isso, para conseguirmos inclusivamente conquistar algum mercado à cerveja.
Iremos lançar uma edição especial de um vinho branco e de um vinho tinto no final do ano, para comemorar os cinquenta anos da Adega Cooperativa de Almeirim, fizemos para isso dois vinhos, não vou falar muito sobre eles para não desvendar muito, mas fizemos dois vinhos que tentámos que fossem de excelência, que serão lançados por altura das comemorações, esperemos que no último trimestre deste ano, precisamente para celebrar o primeiro cinquentenário da Adega de Almeirim.
Há um estudo muito interessante, a que eu tive acesso há dias, que projecta a indústria do vinho para daqui a cinquenta anos, normalmente estes estudos são sempre feitos por americanos, e que diz que daqui a cinquenta anos o principal produtor do mundo é a China, o segundo maior é a Índia, a Austrália será um dos mais pequenos, e Portugal em princípio subsistirá aproximadamente com a área de vinha que tem actualmente ou um pouco menos, isto só para nos dizer que efectivamente isto muda tudo.
Vamos ter a China como maior país produtor do mundo, não nos podemos esquecer que a China neste momento já é um produtor maior do que Portugal, muito pouca gente se apercebe disto, muito pouca gente se apercebe que a Índia está a crescer também e que vai ser um grande país produtor de vinho. A Austrália ficará reduzida a ser um país que produz vinhos para nichos de mercado e muito caros. Isto porque, segundo estes senhores, as alterações climatéricas vão levar a que a Austrália fique cada vez mais desertificada e tenha cada vez mais deserto, portanto as condições vão ser muito difíceis para cultivar vinha na Austrália, contrariamente ao que se passa hoje, em que a Austrália é um país que consegue produzir uma excelente relação qualidade / preço.
A precisão deste estudo, obviamente, é discutível, estamos a falar de uma projecção a muitos anos, tudo isto pode ser alterado, mas o que ninguém duvida é que, se calhar daqui por dez anos, o panorama mundial vai mudar completamente. Eu penso que Portugal, apesar de se dizer que a Península Ibérica tem alguma tendência para a desertificação, penso que Portugal será sempre um país produtor, se calhar vamos deslocar a produção mais para Norte e vamos ter alguns problemas mais a Sul, mas será um país que irá sempre produzir vinho, no entanto, muito provavelmente, será um país que tenderá a produzir mais para segmentos de mercado muito específicos e, eventualmente, também, a preços mais altos. Porque não se consegue competir com os chineses nos preços, nós temos que nos especializar.
Exactamente e na China está-se a passar já o mesmo. Os chineses praticamente não bebiam vinho e hoje em dia começam a beber, um consumo ainda muito incipiente. Não me preocupa que a China seja um grande produtor, porque de facto a China tem mais de mil milhões de pessoas e se uma parte delas começar a beber vinho, o vinho deles não vai chegar para o consumo interno.
Obviamente, há uma coisa que preocupa, que é o preço a que eles conseguem produzir, que mais ninguém consegue. Ou a Índia, que é outro gigante. Nos próximos anos, não sei se é daqui por cinquenta como diz o estudo, na minha opinião serão bastante menos, o panorama irá mudar totalmente e os grandes países que são neste momento os líderes da produção a nível mundial, Espanha, Itália e França, irão efectivamente ficar numa posição muito diferente da que têm agora.
No panorama nacional, o Ribatejo é de longe a região mais competitiva. No panorama internacional, obviamente, já não é bem assim. Quanto pensamos na China e nos salários que os chineses ganham, apesar de ser uma situação que tenderá também a alterar-se, como é evidente, mas de qualquer maneira qualquer país tem muitas dificuldades em competir com a China se for pelo preço. No entanto, estou convencido que Portugal irá trabalhar daqui por uns anos essencialmente para nichos de mercado.
Na minha opinião, serão nichos de mercado de qualidade elevada, muitos consumidores noutros continentes querem vinhos europeus, que continuarão sempre a ser vinhos europeus, é o Velho Mundo, tem uma tradição de séculos na cultura da vinha e, portanto, essa tradição está cá.
Tem, tudo indica que sim. Trabalhamos para que tenha.
ALMEIRIM / 2008