Adega Cooperativa de Almeirim

Entrevista ao Sr. António Ferreira, presidente da Adega Cooperativa de Almeirim.

Senhor António Ferreira, é produtor antes de ser o presidente da Adega Cooperativa de Almeirim. Quais foram as razões que o levaram a aderir a esta casa?

Eu tinha 19 anos, no máximo, quando entrei para sócio da Adega. Era ainda na Junta Nacional dos Vinhos. Depois criaram-se aqui instalações e viemos aqui para cima. A Adega faz parte da minha vida. Já há quase cinquenta anos que sou sócio, praticamente desde o início.

Encontrei na Adega Cooperativa de Almeirim o apoio necessário para trabalhar e crescer. Éramos, talvez, trinta sócios no início e evoluiu-se muito. De tractores pequenos passou-se para tractores maiores, depois apareceram as máquinas de vindimar e, em paralelo, a capacidade da Adega para receber as uvas aumentou muitíssimo.

Temo-nos mantido sempre actualizados, investindo na tecnologia e nos recursos humanos, foi fundamental termos contratado um bom enólogo, o Eng.º António Ventura, um excelente técnico, que nos garante a qualidade da nossa produção e nos permite acompanhar as mudanças no mercado.

Esta Adega nasceu para defender os pequenos e médios agricultores da região, para concentrar a produção e controlar melhor as vendas, conseguindo-se um preço uniforme para todos e permitindo a entrada nos vinhos engarrafados a produtores que isolados não teriam meios para isso. É um facto que a união faz a força.

Quantos sócios tem agora a Adega Cooperativa de Almeirim?

Sócios activos são cerca de 500, um número que representa perto de 2.000 hectares de terra. Esta Adega faz parte da história e da vida económica da região, fazemos um movimento bastante relevante.

A cultura do vinho faz parte do nosso país e os agricultores da região podem contar com esta estrutura associativa para continuarem a investir na vinha, mesmo enquanto outras culturas, como o milho, têm mercados emergentes e ganham por isso valor. Cada vez mais importa vender bem o vinho para poder pagar bem a uva.

Qual é o balanço que faz do seu trabalho como presidente da Adega Cooperativa de Almeirim?

Bom, já tinha sido convidado antes, por várias vezes, para fazer parte das direcções e recusei sempre, porque tinha receio de falhar e na vida é muito importante nós não falharmos, mas desta vez entendi que tinha chegado o tempo de dar o meu contributo, porque a situação existente não me parecia a melhor, e resolvi em conjunto com outros sócios dar as mãos.

Acredito que estamos novamente com um rumo firme e no bom caminho. Começámos já um segundo mandato.

Pode falar-nos da Adega, de alguns momentos mais marcantes nestes 50 anos de história, com todos os desafios e mudanças que aconteceram, tais como a adesão do país à Comunidade Europeia e a globalização?

É necessário um grande espírito de luta. Um privado quando investe sabe exactamente com o que pode contar, pode planear com maior segurança e gerir a mais longo prazo, aqui estamos mais sujeitos a condicionalismos com origem no exterior e dependentes sobretudo da vontade de todos os nossos associados. Por exemplo, quando o Estado dá incentivos financeiros para arrancar vinha, depois de ter incentivado a modernização e o investimento em equipamento, nós temos de repente o problema de ficar com capacidade instalada a mais, isso não acontece a uma empresa privada.

As nossas direcções têm mandatos de três anos, o que significa que para manter a estabilidade é necessária a vontade dos sócios. Esta Adega faz parte da minha vida e quando aceitei o convite que me fizeram foi para ajudar a vencer as dificuldades que o sector da vitivinicultura está a atravessar, com os custos de produção a aumentarem todos os dias. É necessário um grande espírito de luta para continuar a produzir riqueza.

Foram 50 anos, em que ultrapassámos algumas situações muito difíceis, no final dos anos 80, por exemplo, depois de termos feito grandes investimentos,
viveu-se um período de grande crise no sector. Mas estou convencido de que, se os sócios se mantiverem unidos, vamos ultrapassar todas as dificuldades, mesmo as medidas erráticas e contraditórias tomadas inadvertidamente pelos nossos Governos. Contra essas asneiras pouco podemos fazer, a não ser suportá-las e seguir em frente.

O plano de Marketing e a estratégia de comunicação são muito importantes para a criação de valor, qual é o papel do presidente da Adega nesse trabalho diário?

Temos bons sócios e acreditamos no aumento da exportação e em criar e lançar novos vinhos. Todos lutamos no mesmo sentido. Eu sou agricultor e como presidente da Adega compete-me apoiar a Dra. Marta Ramalho, o trabalho que está a ser desenvolvido e todos os que são funcionário desta casa e trabalham para atingirmos os nossos objectivos.

Temos bons produtores, temos bons vinhos, e os frutos têm estado a aparecer, aumentámos as vendas no mercado nacional e queremos ter um papel mais condizente com o nosso estatuto de maior produtor nacional.

A baixa quota de mercado dos vinhos da região, que é aproximadamente de 2%, deve-se sobretudo a alguma falta de promoção dos vinhos do Ribatejo?

Esse número refere-se com certeza às vendas de vinho engarrafado, porque nós somos de facto o maior produtor nacional, fruto da qualidade que nos é reconhecida por quem percebe de vinho. Quanto ao vinho engarrafado, temos investido na criação e divulgação de marcas próprias, que é onde podemos ganhar mais valor, apontando também para a exportação.

Claro que a vida dos agricultores é uma vida dura e compete a quem está à frente desta organização, sendo também, e antes de mais, agricultor, ter o cuidado de investir bem os recursos para não defraudar as expectativas dos nossos associados. A publicidade, quando é bem feita, tem retorno, é um investimento, mas a médio ou longo prazo, e nós devemos olhar bem pelo presente dos nossos associados, não só pelo futuro.

O que fazemos, para suportar a nossa promoção sem diminuir minimamente o rendimento dos nossos sócios, é incorporar uma pequena percentagem no preço de venda do vinho engarrafado, que se destina a pagar a publicidade. O aumento da notoriedade das nossas marcas irá criar mais valor para todos, para os nossos associados e também para os nossos clientes. Considero que as nossas marcas são hoje mais conhecidas, e a própria marca Adega Cooperativa de Almeirim tem beneficiado desse trabalho.

Fazemos agora parte de uma associação de adegas nacionais, das maiores do país, um agrupamento que conta com oito empresas, para o qual fomos convidados e ao qual aderimos, com o objectivo de exportar os nossos vinhos para novos mercados, nos quais incluímos a China, a Índia, a Rússia, os Estados Unidos.

Não competiria à CVR do Ribatejo fazer uma promoção mais visível e eficaz dos vinhos desta região, melhorando a imagem de marca, fazendo um trabalho mais à semelhança do que fazem outras Comissões Regionais?

Sim, nós temos conhecimento de que algumas Comissões apoiam muito mais os agricultores do que esta. A nossa deve ser a que cobra mais por cada garrafa que vendemos, como contribuição para a promoção da região, que, sinceramente, não se vê por vezes. A nossa qualidade é equiparável, quando não superior, mas entendo que não temos estado tão bem apoiados, em vários sentidos, como os produtores de outras regiões. Espero que esta realidade mude para melhor.

Este é o maior produtor do país, situado na região nacional com maior potencial em termos de produtividade e de relação custo / qualidade. Até que ponto essa posição será determinante para um papel de maior relevo também ao nível das exportações?

Tem de haver investimento. Eu na minha vida aprendi que é preciso investir, mas com ponderação e seguindo critérios bastante exigentes, para garantir que teremos o proveito desses investimentos. Sobretudo nestes dias em que vivemos, essa ponderação é fundamental, temos que procurar maximizar a rentabilidade de cada investimento que fazemos, não temos margem para desperdícios ou para grandes aventuras.

Nós aqui sabemos que temos que nos preparar, temos que nos modernizar, no entanto sempre a medir bem os passos que damos. Uma coisa que aprendi ao longo da minha vida é que as boas casas são bem governadas e nós aqui queremos que os nossos pés assentem em terrenos firmes, especialmente agora que estamos a correr por novos mercados.

Não podemos escorregar. Temos boas condições, estamos inseridos numa região com terras muito férteis, que produzem boa qualidade e têm todas as condições para produzir diversos tipos de vinhos. Nós podemos responder às necessidades de cada mercado, porque no mercado global temos que fazer os vinhos que os clientes querem.

ALMEIRIM / 2008